a gente ama porque é a única coisa que nos resta a fazer
eu te amei fundo, não me arrependo. e não me arrependo porque conheço pouca gente que se atiraria no amor de peito aberto, manso, livre.
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e você vai se virar contra si mesmo e dizer “não vou amar esse cara porque sei que ele vai me machucar”? porra bicho, não dá. você não pode simplesmente se negar ao amor porque em determinado momento alguém não soube recebê-lo. acontece. aqui, ó, bonitão: a vida é só
isso. ou tudo isso. você vai levar uns amores pra sua casa, vai dar banho neles, vai vê-los vomitarem toda a bebida alcoólica e no dia seguinte eles irão embora. cê tá preparado pra isso? já dizia drummond que o amor é “bicho instruído”. ele sobe nos
pés de bananeira. ele cai da árvore. ele sangra. você tá preparado pra sangrar também?
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você está aí distribuindo amor e tem aqueles que nunca nem sentiram um resquício de vida. por causa disso você vai temê-los? fiquei com um cara dez meses e nesses dez meses eu não senti nenhuma vez que fosse amado, embora amor de minha parte não faltasse. o que eu poderia fazer? amor eu tinha. sensações, sentimentos, adrenalinas e agonias, também. eu era cheio, cara. cheio. tem gente que se a gente colocar a mão no peito não sai nada, sabe? nada. daí você fica se questionando se o problema é você, corre para as salas de terapia, arruma um bode expiatório para passar um tempo, lê livros sobre psicanálise, se empanturra de vazios e, olha só: não é só sobre você. as respostas para todas as suas incongruências, para os
males da sua solidão, para a maneira densa como você absorve a vida. você tá prestando atenção no que cê tá lendo aqui? ó: na vida você vai encontrar uns abestados que não saberão lidar com sua sensibilidade. eles vão pisar em você porque, acima de tudo, eles não sabem lidar com si próprios e com a vida. essas pessoas que colocam a mão no seu peito e sujam sua fé e deixam você à mercê, elas estão perdidas. e, caramba, mesmo depois delas você ainda tem
amor. você é forte.
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eu continuo aqui. ainda mais forte e vertebrado. porra, eu continuo aqui. e depois de você, depois do que você foi, eu permaneço aqui - não no mesmo lugar, porque aprendi a crescer, a tornar-me outro. eu sou uma equação matemática: não cesso nunca na minha impiedade em amar. eu amo pra caralho porque é a única coisa que me resta e você ainda não percebeu que a vida não é sobre friezas e expectativas mutiladoras; sobre o quanto você consegue esconder as feridas; sobre o quão patético ficamos ao doar amor.
e daí se doamos amor? amor nunca vai nos faltar! amor emana, proclama, ama. veja só. depois de você, tenho ainda mais vontade de amar outros e outros e outros até me foder e ser fodido e experimentar do ácido que é a vida borbulhando
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você vai quebrar a cara muitas vezes. não raro, seu coração vai parar por microssegundos por causa de outras pessoas. você vai chorar aos sábados e aos domingos e às segundas e às terças - sim, ininterruptamente. você vai praguejar contra deus e contra todos os outros deuses que você souber. você vai querer nunca ter passado por isso. mas você passou. e você está passando. e você continua intactamente amando. repete comigo: “eu continuo intactamente amando”. você, que é um indivíduo dotado de uma capacidade hermenêutica de amar. você, que venceu toda a paranoia e libertou-se dos estereótipos de que o amor é verdadeiro, e exclusivo, e pateticamente bom. você, que também entendeu que ele é verdadeiro, exclusivo, e amargamente bom.
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o amor
não tem culpa de nada. ele só é.
e eu fui amor. todo e tolo amor.
e, porra, eu te amaria e seria fodido muitas outras vezes só pelo prazer de carregar tamanha graça. há sentimentos que, de tão gratuitos, acabam se tornando inenarráveis.
não me atrevo a negar amor a ninguém
[e não sei se você é sortudo ou azarado por isso]